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Pintura


ENTREVISTA COM RENATO FIALHO

Pergunta – Como você se define como artista?
RF – Sobre este ponto inicial sugiro que se leia o texto do Raul Motta que conhece de longa data o meu trabalho, onde ele faz considerações valiosas para uma pesquisa. Mas devo afirmar de acordo com o texto, que sou por formação um autodidata.

Pergunta – Fale um pouco sobre a sua pintura.
RF – Quanto ao tipo da minha pintura não me atenho a estilos. Utilizo atualmente uma técnica seguida por alguns artistas, tendo como base uma emulsão acrílica, com a qual através dos pigmentos adquiridos no mercado especializado, procuro produzir as minhas próprias cores, o que me oferece maior satisfação tanto na qualidade do colorido quanto nas tonalidades que se vão descortinando no processo.

Pergunta – Quais são as suas influências ou principais influências?

RF – As influências para um pintor como eu são sempre importantes no processo de formação. Nesta etapa procurei frequentar muitas exposições oficiais, conheci pessoalmente alguns artistas que me incentivaram, como por exemplo Sigaud e Lauria, a frequentar o Salão Nacional de Belas Artes, onde obtive premiações em 1970 e 1971. Por discordar dos métodos, acabei me desligando das exposições oficiais. Observei Portinari, Djanira, Di Cavalcanti, as abstrações do mestre Iberê Camargo, que me foram muito úteis em termos de evolução. Atualmente procuro seguir uma linha que seja coerente com o que observo na arte latino-americana contemporânea – México, Peru, Venezuela e Colômbia, principalmente.

Pergunta – Quantos trabalhos você calcula que tenha feito?

RF – Com tantos anos de trabalho, comecei a pintar na década de 60, me foge do controle o número de obras, entre desenhos e pinturas. Mas se eu declinar entre quinhentas e seiscentas obras não será nenhum exagero. Em meu estúdio conto com cerca de 180 trabalhos.

Pergunta – E qual foi sua relação com o mercado de arte até aqui?

RF – Sinto dificuldade com relação a comercialização atualmente. Houve época em que trabalhava com exclusividade para uma galeria e a compensação era pequena, pois o retorno era para adquirir pincéis, telas, tintas, espátulas etc. Com o fechamento desta galeria, passei a trabalhar com uma outra, com cujo o proprietário me desentendi. A partir daí fiquei fora do mercado, trabalhando por pequenas trocas, ou seja, gastando o ganho com uma produção intelectual que é pouco reconhecida. Ultimamente tenho sido convidado para mostras apenas de caráter e objetivos culturais.

Pergunta – E como você trabalha com as cores? E os temas?

RF – Gosto de trabalhar com economia de cores, porém delas tirando o máximo proveito possível. Tanto nos vermelhos e amarelos, nos verdes e azuis, sigo as mesmas preocupações, procurando tirar proveitos dos acidentes e subtons para permitir que a emoção transpareça. Prefiro a temática nativa, pois trago em mim uma experiência de vida dos meus já 67 anos de idade, que procuro transpor para a tela – a beleza do carnaval, os jogos infantis, o gosto pela quietude: ora retratados na rusticidade dos aglomerados suburbanos, ora aflorada na mansidão das naturezas mortas, o sacrifício quase santo de algumas figuras do cangaço, a inocência maculada dos meninos de rua. Daí à cultura oral dos indígenas, transpostas em imagens e até todo o encantamento do caos, do nascer, da complexidade de um corpo vivo, o micro, o macro etc.
A pintura para mim é isto: é este transbordar do caos à existência.

Entrevista concedida em 2001.


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